Mexericos Públicos e Privados

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OS POEMAS


Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e

pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti…

Mario Quintana

 

 

Penso o mesmo sobre os livros: "E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti..."

 

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Olá, gente!

Li este texto hoje e achei muito bom!

Gostaria de compartilhar, mas demorei a conceber como faria isso, até que lembrei que um dia tive um blog. 🙂 Sim, há tempos esqueci que ele existia… 😦 Tenho mania de pensar que as coisas são irrelevantes demais para serem publicadas de uma forma mais permanente. Talvez por isso goste tanto do twitter. Um tweet são 140 efêmeros caracteres (lógico que há suas exceções. Já presenciei vários bafões pelo twitter, ahua!). Entretanto, há textos que merecem uma maior exposição, e este é um deles.

Mas, não vou me alongar com explicações… Posto isso, espero que gostem da crônica de Marina Colasanti.  Eu amei!!! 😉

Bjus

Yasmin

P.s. Descobri que a autora, Marina Colasanti, nasceu na Etiópia e mora no Rio de Janeiro. Ela é poeta, pintora, jornalista e casada com Affonso Romano de Sant’Anna. A primeira vez que fiz uma gravação “ao vivo” para a televisão, na minha época de TV PUC, foi com ele. Além de um poeta excepcional, um amor de pessoa.  🙂

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EU SEI, MAS NÃO DEVIA

 

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Um erro de avaliação, um levante feito de forma precipitada, e a morte de uma inocente. Estes são alguns dos ingredientes do livro Elza, a garota: a história da jovem que o partido comunista matou, de Sérgio Rodrigues, lançado pela editora Nova Fronteira. A narrativa alterna realidade e ficção, e conta fatos que por mais de 70 anos as esquerdas quiseram esquecer. A morte de Elvira Cupello Calônio, mais conhecida pelo codinome de Elza Fernandes, foi o símbolo do fracasso da Intentona Comunista de 1935.

Aos 16 anos, interiorana e analfabeta, Elza era esposa do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), Miranda. A menina não entendia de política. E nisso, parecia não diferir muito dos seus companheiros do PCB. Em meados da década de 30, os comunistas pensavam que o Brasil estava pronto para a revolução. Luiz Carlos Prestes, líder do levante, achava que o prestígio dele ajudaria na adesão dos quartéis.  Seria a revolução operária, feita por militares, num país com uma indústria incipiente: erro de avaliação de um partido despreparado.

Contudo, o Governo Vargas não seria pego de surpresa. Como relembra um dos personagens, Vargas estava prevenido “esmagou aquilo como quem mata um piolho entre as unhas. Plec.” A tentativa de levante que pretendia tirar o ditador do poder só conseguiu legitimá-lo ainda mais. “Em condições normais, Getúlio não teria durado muito. Agarrou com as duas mãos a oportunidade que os revoltosos de 1935 lhe deram, a de galvanizar a opinião pública contra o perigo vermelho”. A Intentona não mobilizou os quartéis, foi ignorada pelo povo, abriu caminho para a ditadura do Estado Novo, e enfraqueceu ainda mais as esquerdas no Brasil.

A polícia prendeu, em dois meses, mais de 17 mil pessoas. “Era a hora do acerto de contas de Getúlio Vargas com tudo o que cheirasse a oposição”. Um dos homens de Moscou, Franz Paul Gruber – especialista em explosivos – era um espião. Mas, só Elza foi morta, pelo próprio PCB, acusada injustamente de delatar os comparsas. Por essas e outras que Xerxes, chamado no livro de a “História Encarnada”, diz que a grande diferença entre “os filhos da puta de extrema direita” e os “filhos da puta de extrema esquerda” é que os primeiros sabem que são “filhos da puta”, já os segundos “se acham mais puros que São Francisco de Assis”.

Yasmin Pamplona

Um livro que mescla jornalismo e literatura

Um livro que mescla jornalismo e literatura

O celular de Yvonne Bezerra de Mello não parou de tocar na última terça-feira, quando o estudante Felipe dos Santos Corrêa Lima, de 17 anos, foi morto no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio. Segundo moradores do local, os tiros teriam partido da arma de um policial. Yvonne estava na favela para mais uma aula no Projeto Uerê, que tomou forma após um outro telefonema que ela recebeu há 16 anos. O aviso era bem parecido: menores teriam sido mortos pela polícia. O local era conhecido da artista plástica: as calçadas da Candelária, no centro da cidade.

Na noite do dia 23 de julho de 1993, o telefone tocou tarde, no amplo apartamento na zona sul da cidade. Ela logo atendeu para não acordar o marido, o empresário Álvaro Bezerra de Mello, sócio da rede de hotéis Othon. Do outro lado da linha, uma criança desesperada pedia ajuda. Yvonne foi uma das primeiras a ser avisada que a polícia havia matado oito crianças, das 72 com as quais trabalhava, no massacre que ficou conhecido como Chacina da Candelária. “Eles eram ameaçados todos os dias pela polícia. À noite, antes de ir embora, eu deixava três fichas telefônicas com os meninos para que eles ligassem caso alguma coisas acontecesse”, lembrou Yvonne, que ficou de meia-noite às 6 horas na calçada com os sobreviventes, até que a imprensa chegou e o rabecão veio buscar os mortos.

Filha de uma funcionária pública e de um comandante da Marinha, ela foi criada apenas pela mãe. Aos 13 anos, começou a trabalhar como voluntária no Instituto Benjamin Constant e na Pestalozzi. Aos 17, ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Sorbonne. Durante a estada na França, fazia bicos tomando conta de crianças e passeando com cachorros para complementar a renda. Aos 20 anos, conheceu o primeiro marido, um diplomata sueco, com quem teve três filhos. Com ele, Yvonne trabalhou em campos de refugiados na África e viu a realidade sombria da fome e da miséria. Aos 34, após se separar, retornou ao Brasil. Doutora em Lingüística e Filologia, fluente em seis idiomas, ela decidiu ensinar e alfabetizar crianças de rua. Em pouco tempo, já tinha três salas de aula a céu aberto: duas em Copacabana e uma na Candelária.

Foi nessa última que ela conheceu Sandro Nascimento (um dos sobreviventes da Chacina da Candelária). Em 2000, ele seqüestrou um ônibus 174 e matou uma das reféns, Geísa Firmo Gonçalves, de 20 anos. Durante o sequestro, Sandro pedia aos negociadores que chamassem a “Tia Yvonne”, mas na ocasião ela não estava no Brasil. Pelo telefone foi avisada da tragédia. “O Sandro tinha visto a mãe ser morta. Algumas pessoas pensam que os menores que ajudo são bandidos, e esquecem que existem bandidos ricos. Chego a ser ameaçada quando acontece um assassinato cometido por um menor”, desabafou a, também, doutora em Políticas Públicas e Direitos Humanos, que já recebeu cusparadas na cara por defender crianças de rua.

Os três filhos de Yvonne, por motivos profissionais, não moram mais no Brasil. Isabel Löfgren, uma das filhas, leciona na Faculdade de Cingapura há dois anos e meio e, por e-mail, diz que nunca sofreu ameaças, mas relembra a época da Chacina da Candelária, quando muitos amigos se afastaram. “Uma vez, quando estava na escola, um engraçadinho veio me perguntar se o tênis importado que eu estava usando não teria sido comprado com o dinheiro que a minha mãe ganhou às custas dos assaltos das crianças. Não pestanejei. Parti pra cima do garoto, dei um soco nele”, contou, “Se fosse hoje eu teria ignorado”. Para a amiga e presidente do Projeto Uerê, Luciana Martha, causa desconfiança em alguns o fato de Yvonne conseguir transitar com extrema desenvoltura seja na favela ou num jantar na casa de um grande empresário. “Em ambos ela tem a mesma atitude. Ela entende da alma humana”, analisou Luciana, depois de dez anos de convivência.

Aos 62 anos, uma das maiores marcas da carioca é o Projeto Uerê. O Uerê-Mello – método de ensino desenvolvido por Yvonne – já beneficiou mais de duas mil crianças, e deve ser inserido nas escolas municipais da cidade do Rio de Janeiro ainda nesta gestão. Na comunidade Nova Maré, o Uerê atende meninos e meninas de três a 18 anos que apresentam confusão mental, falta de concentração e quaisquer outras dificuldades relacionadas à violência. Segundo Yvonne, 90% dos menores apresentam melhoras significativas.

Como é o caso de Jonathas, que tinha seis anos quando chegou ao projeto. O pai havia esfaqueado a mãe na frente dele e dos irmãos. Traficantes mataram o pai do menino. A criança parou de crescer, passou a apresentar problemas de visão e dores de cabeça. Depois de oito anos de tratamento, ele voltou a se desenvolver, a falar normalmente, e conseguiu uma bolsa de estudos numa escola particular. “As crianças chegam com medo, ninguém nunca se interessou nelas. De repente, elas começam a escutar: ‘Como você está bonita hoje’. Em dois meses, a diferença é brutal”, disse a doutora em Direitos Humanos.

Em Cingapura, a caçula Isabel utiliza a mesma didática com os estudantes universitários. “Funciona perfeitamente. O método Uerê não é só para crianças com trauma, mas para qualquer um que esteja em modo de aprendizado, tendo oito ou 80 anos”. A empresária holandesa Annie Hasemanns conheceu Yvonne pelo filme Warrior of Light (Guerreiro da Luz), produção alemã que conta a história da carioca. Em 2003, Annie decidiu se unir ao Uerê e, hoje, é coordenadora internacional do projeto. “Se Yvonne fosse uma cidadã alemã, ela teria sido honrada com a Cruz Federal de Mérito pelo seu trabalho com a vida de crianças que estão excluídas”, afirmou Annie.


Por Yasmin Pamplona

Olá gente,

confesso que  ando meio sem inspiração para escrever sobre qualquer assunto. Na verdade, esse negócio de férias tem seu lado bom, e seu lado ruim como todas as coisas na vida! O lado bom, que também é ruim :), é que tenho acordado cada dia mais tarde, tomado café na hora do almoço, almoçado na hora do jantar, dormindo quase na hora de acordar. E a falta de PC, nos momentos de reflexão da madrugada, me leva a nunca postar no blog.

Mas, hoje me lembrei de uma pessoa que mudou a minha vida. Já li a entrevista com a socialite paulistana Yara Baumgart umas cinco vezes, e acho perfeita! As perguntas isoladas não têm nada demais. Questionar um entrevistado sobre a faculdade, ou os cuidados com a beleza parece uma coisa natural. Agora, questionar Yara sobre esses assuntos é diversão na certa!

Para quem tiver alguma dúvida sobre a veracidade as respostas, ela foi publicada nas páginas amarelas de Veja [http://veja.abril.com.br/201004/entrevista.html]. Nem sei se posso postar tudo aqui, mas, até a segunda ordem, segue abaixo… Se divirtam com a sagacidade da repórter, e com a naturalidade e “inocência” da  “bandeirante desbravante”.

Yasmin Pamplona

“Bandeirante desbravante”

É assim que se define a empresária paulistana Yara Baumgart. Ela brilha no mundo da beleza e gosta de esgrimir suas aptidões intelectuais.

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A empresária paulistana Yara Baumgart, de 56 anos, sai do sério quando alguém a chama de perua. Já levou à Justiça o colunista José Simão, da Folha de S.Paulo, por ter-lhe sapecado esse adjetivo um tantinho substantivado. Yara tem razão de ficar zangada. Depois de anos dedicados exclusivamente à vida em sociedade e à família (seu marido é o empresário Roberto Baumgart, fabricante de produtos químicos e dono de shopping centers), ela resolveu dar um basta na dondoquice. Usou a experiência adquirida como paciente de clínicas estéticas no exterior para abrir a Kyron, a maior clínica desse tipo no Brasil. Há alguns anos, Yara descobriu também que pode haver idéias debaixo da chapinha japonesa. Em julho, formou-se em filosofia. Yara gosta de citar grandes pensadores, diz que é fluente em cinco idiomas e conta que tem 5 000 livros em casa. Fala sempre baixo e num tom monocórdio. Falar assim, explica, “é muito europeu”. Em seu escritório, em São Paulo, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Desde quando a senhora se dedica aos cuidados com a beleza?
Yara – Desde muito pequena. Herdei essa característica de mamãe, que sempre foi vaidosa. Lembro que, quando eu era criança, ela ia a uma esteticista romena que lhe aplicava cremes de lanolina no corpo todo. Em casa, mamãe se sentava em frente a um espelho que tínhamos no banheiro e dava palmadinhas no rosto com uma almofadinha presa num arame, para ativar a circulação. Aos 7 anos, comecei a estudar balé. Mamãe vivia preocupada com as minhas pernas. Por isso, me levava para fazer massagem com terapeutas alemãs. Ela tinha medo de que eu ficasse com pernas de jogador de futebol.

Veja – Foi graças a sua mãe, então, que a senhora ganhou pernas de bailarina…
Yara – Fiz balé clássico até os 19 anos e ioga por mais dezessete. Sempre me preocupei mais com o corpo do que com o espírito. Agora, quero encontrar o caminho da verdade. Comecei a fazer aikidô. Um sensei me dá aula particular. Ele tem uma energia fortíssima. Para você ter uma idéia, o sensei arremessa os alunos faixa preta ao chão com seus golpes. Depois, estende o braço e lhes mostra a palma da mão. Os alunos ficam congelados no lugar onde caíram só pela energia que sai da sua mão. É igual ao filme O Último Samurai. Aprendi coisas incríveis com o aikidô.

Veja – Que coisas?
Yara – A dar cambalhota, por exemplo. É mais ou menos a representação da vida. Nascemos com a possibilidade de fazer uma infinidade de coisas, mas, com o tempo, criamos arestas. O aikidô nos ajuda a aparar essas arestas e ficar mais redondos. Veja bem: redondo no contexto energético. Fisicamente, é o contrário. Aikidô emagrece e afina a cintura.

Veja – O que mais o aikidô lhe ensinou?
Yara – Aguçou meu feeling. Tenho boa intuição, mas só dei atenção a ela depois de uma experiência aterrorizante no aeroporto em Paris. Senti um frio na barriga na hora em que peguei na esteira de bagagem uma maleta Louis Vuitton, que tinha umas bobeirinhas dentro, como meu passaporte – o brasileiro, porque o italiano estava na bolsa –, um reloginho Cartier, uma maquininha digital e uns creminhos. Não dei bola para essa sensação e fui para o carro que me esperava no terminal. Você acredita que roubaram a maleta? O aikidô me fez enxergar minha parte de culpa nisso. Pressenti que iam levar a maleta e não fiz nada.

Veja – A senhora fez faculdade?
Yara – Acabo de me formar em filosofia. Foram quatro anos iluminados de estudos e descobertas. Convivi com os grandes pensadores. Aprendi muito com os meus queridos Aristóteles, Sócrates e Kant.

Veja – E teve formatura?
Yara – Dei uma grande festa. Reproduzi na minha casa o bar da universidade. Todos foram de estudante. Hebe Camargo foi de saia pregueada e meias três-quartos. João Armentano, de boné e colete. Espalhei pôsteres de 3 metros de altura com o rosto e os dizeres de filósofos. A idéia era passar um pouquinho do meu conhecimento para os convidados. Um dos pôsteres era de Parmênides: “O homem é e não pode não ser”. Isso diz muito. É como vermos na rua uma pessoa atropelada ou espancada. Não dá para fazer de conta que não aconteceu.

Veja – A senhora pretende continuar seus estudos filosóficos?
Yara – Vou fazer mestrado em filosofia da estética que, nossa, é um sem-fim. Pretendo estudar (Theodor) Adorno (filósofo alemão). Chego a ter taquicardia quando leio seus livros.

Veja – Por quê?
Yara – Ele fala da estética do homem como um todo, sabe? A pintura, a arquitetura, a poesia, a literatura. A estética trata desses assuntos que acabei de falar.

Veja – A senhora poderia ser mais clara?
Yara – Por exemplo: eu gosto desse quadro chinês aí na parede. Você não gosta? Tudo bem. É uma questão de valores. Isso é que é estética. É mais ou menos por aí.

Veja – O que a senhora modificou na estética do seu corpo?
Yara – Vamos por partes. No cabelo, fiz reflexo e um relaxamento na raiz dos fios. É que, cá entre nós, (cochichando) meu cabelo é pixaim. Fiz uma plástica no nariz, outra no pescoço e coloquei silicone nos seios. Tenho aparelho fixo nos dentes, que empurra os lábios para fora, fazendo com que eles pareçam carnudos. Uso lentes de contato verdes ou azuis. Ponho as azuis quando estou relaxada ou em missões de paz. Comprei as verdes para ficar com a cor dos olhos dos meus netos quando estamos juntos. Agora, quando vou assinar contratos ou dar entrevistas, fico com os olhos castanhos mesmo, que transmitem firmeza.

Veja – E Botox?
Yara – Apliquei na testa e em volta dos olhos. Tem gente que exagera e fica sem expressão. Em mim, ficou natural. É bem verdade que não levanto muito as sobrancelhas. Também não consigo abrir um sorrisão. Mas tudo bem: as coisas estão aí para ser usadas. Não perco tempo passando mil cremes. Não perco tempo com futilidades.

Veja – Então a senhora sai de casa de rosto lavado?
Yara – Nunca! Não gosto de mim sem maquiagem. Detesto me olhar no espelho de manhã.

Veja – Que mulheres a senhora mais admira?
Yara – Uma é a Marilyn Monroe. Ela adorava o glamour. Também me identifico com Diane de Poitiers e Aspásia. Diane viveu no século XVI e ampliou a cultura na França. Sua família tinha títulos de nobreza, como a minha. Aos 60 anos todo mundo lhe dava 30. Além disso, protegia pintores e divulgava encontros culturais. Já Aspásia foi a professora de Sócrates.

Veja – Que homens a senhora considera elegantes?
Yara – Elegância é uma coisa que vem de dentro. (O jornalista) João Dória Júnior e Fernando Collor são exemplos de homens elegantes. Vestem-se de maneira clássica, são tradicionais. O João é capaz de jogar futebol sem tirar um fio de cabelo do lugar. Ah, acho elegantes também todos os homens que jogam pólo.

Veja – A senhora é religiosa?
Yara – Fui católica até os 14 anos. Um dia, quando estava me confessando, o padre me deu uma bronca porque não havia ido à missa. Na hora, tive certeza de que o catolicismo não era o meu caminho. Quem era aquele homem para me criticar? Passei a acreditar na natureza. Creio nas árvores, nos bichos e na água. O canto do passarinho é a representação pura da energia que existe no cosmo. Daí o meu cuidado com o meio ambiente. Só uso spray de cabelo que não prejudica a camada de ozônio. Ando tendo muitas preocupações com o mundo.

Veja – Quais?
Yara – A maior é com a água. Se não economizarmos, vai faltar no próximo século. Também estou apreensiva com o tempo. Li que o dia passou a ter só dezesseis horas, segundo a física quântica. É incrível como não conseguimos mais cumprir com nossos compromissos…

Veja – Como a senhora definiria a física quântica?
Yara – Não sei explicar direito, mas posso dar um exemplo. Quando vou contratar alguém, além de avaliar seu currículo, procuro sentir sua energia. Se é boa, houve um encontro dos nossos campos energéticos, entendeu?

Veja – Mais ou menos. A senhora faz caridade?
Yara – Não dou esmola, mas ajudo carentes em Campos do Jordão. Acho um absurdo essas pessoas que fazem de pedir esmola na rua um comércio. Detesto ver crianças exploradas pelas mães nos semáforos. Uma vez vi um senhor que tinha um quelóide no peito e fazia point nos Jardins (bairro de classe média alta de São Paulo). Um absurdo!

Veja – Quais foram as maiores lições que recebeu de seus pais?
Yara – Mamãe me ensinou a dar festas como ninguém. Aos 9 anos, eu já era capaz de organizar um jantar americano para trinta pessoas. Papai me ensinou a gostar de livros.

Veja – De que tipo de livros a senhora gosta?
Yara – A-do-ro livros. Tenho 5 000 volumes em quatro bibliotecas. Na biblioteca que eu chamo de social, guardo obras raras. Outra é meu cantinho, com livros de psicologia e de filosofia. A terceira, no meu quarto, tem os livros de capa mole, de administração, auto-ajuda e estética. No escritório do meu marido, estão os livros de arte. Colecionar livros é uma das minhas paixões.

Veja – Quais são as outras?
Yara – Música. Adoro Wagner. Toco muito bem piano. Aliás, tenho três: um Challen, um Bechstein e um pianinho de apartamento para tocar jazz. Outra paixão é olhar o mar. Sinto paz, muita paz. Só de falar sobre o mar, já me sinto tranqüila.

Veja – A senhora tem um gosto musical refinado…
Yara – Você acha mesmo?

Veja – É o que parece. A senhora gosta de algo simples?
Yara – Macarrão Miojo e pão com manteiga. Já quanto a creme hidratante, minha filha, não tenho nada de sofisticada. Uso o da latinha azul, sabe?

Veja – Qual é a sua roupa preferida?
Yara – Uma calça Lee, que ganhei aos 12 anos. É a minha medida até hoje. Quando não entro nela, sei que estou gorda.

Veja – Qual é o número dela?
Yara – Trinta e oito, talvez.

Veja – Quantos vestidos de festa a senhora tem?
Yara – Não sei, mas meu acervo está catalogado, assim como minha biblioteca. Digitalizei meus livros. Agora, estou fazendo isso com os vestidos. Fiz uma foto minha usando cada um deles. Junto com a foto, tem uma ficha com informações importantes. Coisas como onde e quando ele foi comprado, em que ocasiões foi usado e quando foi lavado pela última vez etc. O único problema é que as empregadas não sabem mexer no computador. Quando quero uma roupa, tenho de procurar eu mesma.

Veja – Qual foi a sua maior loucura consumista?
Yara – Fiz uma carreira muito bonita de bailarina em Frankfurt e em Londres. Minha professora, para quem sabe um pouquinho de balé, era da companhia da Anna Pavlova. Minha grande loucura foi gastar meu primeiro salário num par de sapatos e num mantô Dior.

Veja – Como eram os sapatos?
Yara – Sou uma pessoa muito sóbria. Eram de verniz preto, clássicos. Compro pouco, mas sempre do melhor. Gosto de qualidade, não de quantidade. Isso é bem europeu. Eu me sinto muito européia.

Veja – O que é se sentir européia?
Yara – Todas as viagens que faço têm de ter uma paradinha em Paris. É o ponto de partida da minha vida. Meus avós são italianos. Minha educação, portanto, foi européia. Aprendi as coisas da vida através da arte, da música, da literatura. Por causa dessa tradição, abri uma galeria de arte. Arte, arte, arte, arte, eu respiro arte desde muito pequena. Dizem até que eu sou uma mecenas.

Veja – A senhora não gosta de ser brasileira?
Yara – Tenho orgulho do Brasil. Fico feliz quando as pessoas se maravilham com a nossa cirurgia plástica. Não admito que falem mal do Brasil. Uma vez tive uma discussão horrorosa com um alemão. Ele criticou Jorge Amado. Como falo bem alemão, mostrei minhas garras.

Veja – Como a senhora se descreveria?
Yara – Sou uma bandeirante desbravante. Desvendo novos caminhos. Sou o próprio Mito da Caverna de Platão buscando conhecimento. Estudo nos fins de semana. O primeiro livro de gente grande que li foi a biografia de Leonardo da Vinci. O poder criativo dele me fez perceber que eu poderia realizar tudo aquilo que quisesse. Essa esperança do vir-a-ser é muito bonita.

Veja – Mais alguma coisa?
Yara – Anote aí (lendo um papel): eu respeito a pluralidade racial. Meu querido Kant tinha essa luta. Ele queria a paz entre os iguais. Ah, por favor, não me deixe parecer fútil nesta entrevista, sim?

Adoro este texto do Veríssimo.

Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão.

Transcrevo na íntegra abaixo.

Yasmin Pamplona

“Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão!”, “Culpa da revisão!”). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente. Respondi que a linguagem, qualquer linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover…Mas aí entramos na área de talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura. Claro que eu não disse tudo isso a meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isto eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltratando-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito. Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”.

Luís Fernando Veríssimo

Apesar dos preços salgados, hotel The Maze atrai visitantes de todo o mundo

Com diárias entre R$80 e R$150, em alta temporada, o hotel The Maze é um dos mais diferentes da cidade. O casarão tem vários corredores, alguns ambientes são todos de azulejos coloridos e as paredes são decoradas com temas da cidade e obras de arte. O local é inusitado: o “labirinto” (tradução para o nome em inglês) foi construído no alto da Favela Tavares Bastos, no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro. O turista que se hospedar no morro tem direito a café da manhã, com frutas tropicais, e vista para o Pão de Açúcar e para a Baía de Guanabara. Durante o Réveillon, é possível ver os fogos de Copacabana. Do Ano Novo ao Carnaval, os doze quartos ficam lotados de estrangeiros.

Vista de uma das janelas

Vista de uma das janelas

O proprietário, o inglês Bob Nadkarni, foi repórter cinematográfico da BBC, em Londres, e desembarcou no Brasil há 36 anos. A história é curiosa: Bob parou na Bahia depois que o navio que o levaria para o Equador quebrou. Ele, então, resolveu se estabelecer no país e veio morar no Rio. Em terras cariocas, Bob teve uma empregada que morava no morro. Um dia, quando ela passou mal, ele foi levá-la para a casa. Ao olhar pela janela do barraco, se apaixonou pela vista. Gostou tanto que resolveu viver na favela, há 25 anos.

A idéia do hotel foi nascendo aos poucos e, no final de 2005, o The Maze foi aberto ao público. “As pessoas sempre se hospedavam na minha casa, passei só a cobrar por isso”, se diverte Bob.  Hoje, alemães, suecos, portugueses, americanos sobem as pequenas ruelas da favela para passar alguns dias no “Hotel Favela”. “Foi crescendo com a propaganda boca a boca: um turista ia falando para o outro e o negócio foi se expandindo. Não fiz nenhum tipo de anúncio”, lembra Bob.

“As pessoas sempre se hospedavam na minha casa, passei só a cobrar por isso”

“As pessoas sempre se hospedavam na minha casa, passei só a cobrar por isso”

A segurança é garantida pelo quartel do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), que fica bem ao lado do local. “Aqui é bem calmo, e os freqüentadores não têm medo”, garante o proprietário. Há mais de oito anos não há registros de nenhuma tentativa de invasão na favela. Toda primeira sexta-feira do mês, à noite, tem jazz com churrasco e caipirinha – uma mistura inusitada. O evento começou com um público de 12 pessoas. Um ano e meio depois da primeira apresentação, os números variam entre 200 a 250 visitantes.

Para chegar ao “The Maze”, que fica na rua Bento Lisboa, ao lado da padaria Nova Viriato, os turistas e visitantes podem usar vans ou moto-táxi, que rodam até as 23h.

Yasmin Pamplona



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