Mexericos Públicos e Privados

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Um erro de avaliação, um levante feito de forma precipitada, e a morte de uma inocente. Estes são alguns dos ingredientes do livro Elza, a garota: a história da jovem que o partido comunista matou, de Sérgio Rodrigues, lançado pela editora Nova Fronteira. A narrativa alterna realidade e ficção, e conta fatos que por mais de 70 anos as esquerdas quiseram esquecer. A morte de Elvira Cupello Calônio, mais conhecida pelo codinome de Elza Fernandes, foi o símbolo do fracasso da Intentona Comunista de 1935.

Aos 16 anos, interiorana e analfabeta, Elza era esposa do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), Miranda. A menina não entendia de política. E nisso, parecia não diferir muito dos seus companheiros do PCB. Em meados da década de 30, os comunistas pensavam que o Brasil estava pronto para a revolução. Luiz Carlos Prestes, líder do levante, achava que o prestígio dele ajudaria na adesão dos quartéis.  Seria a revolução operária, feita por militares, num país com uma indústria incipiente: erro de avaliação de um partido despreparado.

Contudo, o Governo Vargas não seria pego de surpresa. Como relembra um dos personagens, Vargas estava prevenido “esmagou aquilo como quem mata um piolho entre as unhas. Plec.” A tentativa de levante que pretendia tirar o ditador do poder só conseguiu legitimá-lo ainda mais. “Em condições normais, Getúlio não teria durado muito. Agarrou com as duas mãos a oportunidade que os revoltosos de 1935 lhe deram, a de galvanizar a opinião pública contra o perigo vermelho”. A Intentona não mobilizou os quartéis, foi ignorada pelo povo, abriu caminho para a ditadura do Estado Novo, e enfraqueceu ainda mais as esquerdas no Brasil.

A polícia prendeu, em dois meses, mais de 17 mil pessoas. “Era a hora do acerto de contas de Getúlio Vargas com tudo o que cheirasse a oposição”. Um dos homens de Moscou, Franz Paul Gruber – especialista em explosivos – era um espião. Mas, só Elza foi morta, pelo próprio PCB, acusada injustamente de delatar os comparsas. Por essas e outras que Xerxes, chamado no livro de a “História Encarnada”, diz que a grande diferença entre “os filhos da puta de extrema direita” e os “filhos da puta de extrema esquerda” é que os primeiros sabem que são “filhos da puta”, já os segundos “se acham mais puros que São Francisco de Assis”.

Yasmin Pamplona

Um livro que mescla jornalismo e literatura

Um livro que mescla jornalismo e literatura

Durante meses li, reli, pesquisei, entrevistei vários historiadores, pesquisadores e estudiosos para um programa sobre o Rio de Janeiro, e as transformações pelas quais a cidade passou depois da chegada da família real portuguesa, em 1808. Ele ficou pronto! A “Corte nos Trópicos” vai ao ar na segunda-feira, 6, às 21h, no Canal 16 da Net. Haverá reprises durante a semana, na terça-feira, 7, às 17h, sábado, 11, às 11h30m e às 23h.

Obs.: Agora dá para assistir na internet pelo site da TV PUC  – http://okm.me/2CTe . É clicar no ícone Pilotis (acima) e pesquisar “A Côrte nos trópicos” (quando vi estava na teceira página). =D

Assistam e depois me falem…

Chegada da Familia Real - Óleo sobre tela, 1999

Chegada da Família Real - Óleo sobre tela, 1999

Sinopse:

Pela primeira vez na história, um rei europeu pisou em uma colônia. E não foi apenas o Rei. Em 1808, a côrte portuguesa desembarcou no Brasil, depois de 54 dias de viagem, e transferiu a capital do Império para o Rio de Janeiro. O Pilotis desta semana mostra o grande choque cultural pelo qual a colônia passou com a chegada dos portugueses. Revela ainda como era o Rio de Janeiro antes desde momento histórico. As diferenças da cidade encontrada por Estácio de Sá, em 1564, e as mudanças corridas no século XIX. Apesar de não ser uma cidade tão diferente das européias, principalmente em relação ao saneamento precário, o Rio mudou muito com a presença da côrte. Entre as obras realizadas, houve a reforma do Paço Imperial, a criação da Biblioteca Nacional e do Jardim Botânico, chamado na época de Horto Real. O programa também apresenta contradições históricas, como o número de pessoas que desembarcaram na cidade junto com os nobres. Alguns livros contam que foram entre dez e quinze mil portugueses. Mas a análise de relatos de viajantes e documentos da época faz com que alguns estudiosos calculem a vinda de cerca de quatro mil pessoas e outros de apenas 420 pessoas. A arte se mistura com a história quando a narrativa fala de artistas como Jean-Baptiste Debret e Grandjean de Montigny, que ajudaram na construção deste novo Brasil.

Yasmin Pamplona



Não poderia haver lugar tão perfeito para recepcionar a família real. De frente para o mar, e moradia da elite política do Rio de Janeiro, o Paço Imperial foi a primeira pousada de Dom João VI e sua corte. Com a chegada da realeza, a construção passou por algumas reformas para aumentar e tornar o espaço mais confortável. Hoje, 200 anos depois da vinda dos reis portugueses para o Brasil, ele é um dos marcos desse período. E testemunha de diferentes momentos da história do país.

Tão importante que inspirou escritores e artistas. Machado de Assis usou o Paço como cenário em algumas obras. O conto “O diplomata” e o romance “Quincas Borba” (1891) são alguns dos exemplos. O escritor tinha uma relação afetiva com o local, pois nele trabalhava o padrinho de Machado, Joaquim Alberto de Sousa Silveira.

Construido no século XVIII, o local já passou por diversas reformas
O local passou por diversas reformas

Construído no século XVIII como a residência dos governadores da então Capitania do Rio de Janeiro, o prédio foi inspirado na arquitetura maneirista (1515–1610), que privilegiava as formas simples. Na primeira grande reforma, o Paço Real, como passou a ser chamado, ganhou um novo andar na fachada central voltada para a Baía de Guanabara, e uma sala do trono, onde era feita a tradicional cerimônia do Beija-mão. Foi construído, ainda, um passadiço que ligava o palácio ao Convento do Carmo, onde se instalou a rainha D. Maria I; e outro à Casa de Câmara e Cadeia, cujas celas foram transformadas em quartos para as damas da rainha.

Como habitação da família real, o Paço continuou a ser o centro dos acontecimentos políticos, econômicos e sociais da cidade. Segundo a professora do Departamento de História da PUC-Rio, Margarida Neves, com a elevação da colônia à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1815, a construção se tornou ainda mais importante. “Quando passa a existir Brasil, ou quando o Rio de Janeiro vira Lisboa, o Paço passa a ser sede do governo geral. Dele são governadas todas as colônias portuguesas, e até mesmo Portugal”, diz Margarida.

As grandes festas e as cerimônias de afirmação do poder eram feitas no entorno do prédio, e das varandas os governantes falavam ao povo. D. Pedro I estava nele quando, em 9 de janeiro de 1822, anunciou a decisão de ficar no Brasil, episódio que ficou conhecido como Dia do Fico. E foi em uma das salas do prédio que, em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.

Paço Real - Theremin 1817
Paço Real – Theremin 1817

Com a Proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1822, o Brasil deixa de ser colônia de Portugal. E o Paço Real passa a ser chamado de Paço Imperial. Para o professor de arquitetura da PUC-Rio, Alfredo Britto, o local virou símbolo do império que nascia. “A arquitetura sempre teve um papel de afirmação de status de poder, sempre foi usada para isso. Os governos fortes, os governos autocráticos, sempre recorrem a ela para marcar a presença. E com o Paço não foi diferente”, observa Britto.

Era necessário que o prédio sofresse uma atualização para se adaptar ao gosto da época, o neoclássico, com a simetria e padrões geométricos. Os antigos beirais do telhado foram substituídos por platibandas – mureta de alvenaria que limita o telhado -, dando uma feição mais reta às fachadas. Esse aspecto durou pouco: com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o edifício perdeu as funções reais e, um ano depois, virou sede dos Correios e Telégrafos.

Durante os mais de 90 anos em que abrigou a repartição pública, o Paço foi totalmente desfigurado. As platibandas foram retiradas e foi construído um terceiro pavimento por todo o perímetro da construção. No pátio interior levantaram um anexo de quatro andares, e os espaços foram redivididos. Além da necessidade de mais espaço, arquitetos e historiadores são unânimes em afirmar que a descaracterização teve como objetivo acabar com as características imperiais do prédio. Em 1982, o edifício foi restaurado, e todas as intervenções foram abolidas. Hoje, o Paço Imperial abriga um centro cultural, e tem a forma que tinha em 1817.

Yasmin Pamplona