Mexericos Públicos e Privados

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O celular de Yvonne Bezerra de Mello não parou de tocar na última terça-feira, quando o estudante Felipe dos Santos Corrêa Lima, de 17 anos, foi morto no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio. Segundo moradores do local, os tiros teriam partido da arma de um policial. Yvonne estava na favela para mais uma aula no Projeto Uerê, que tomou forma após um outro telefonema que ela recebeu há 16 anos. O aviso era bem parecido: menores teriam sido mortos pela polícia. O local era conhecido da artista plástica: as calçadas da Candelária, no centro da cidade.

Na noite do dia 23 de julho de 1993, o telefone tocou tarde, no amplo apartamento na zona sul da cidade. Ela logo atendeu para não acordar o marido, o empresário Álvaro Bezerra de Mello, sócio da rede de hotéis Othon. Do outro lado da linha, uma criança desesperada pedia ajuda. Yvonne foi uma das primeiras a ser avisada que a polícia havia matado oito crianças, das 72 com as quais trabalhava, no massacre que ficou conhecido como Chacina da Candelária. “Eles eram ameaçados todos os dias pela polícia. À noite, antes de ir embora, eu deixava três fichas telefônicas com os meninos para que eles ligassem caso alguma coisas acontecesse”, lembrou Yvonne, que ficou de meia-noite às 6 horas na calçada com os sobreviventes, até que a imprensa chegou e o rabecão veio buscar os mortos.

Filha de uma funcionária pública e de um comandante da Marinha, ela foi criada apenas pela mãe. Aos 13 anos, começou a trabalhar como voluntária no Instituto Benjamin Constant e na Pestalozzi. Aos 17, ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Sorbonne. Durante a estada na França, fazia bicos tomando conta de crianças e passeando com cachorros para complementar a renda. Aos 20 anos, conheceu o primeiro marido, um diplomata sueco, com quem teve três filhos. Com ele, Yvonne trabalhou em campos de refugiados na África e viu a realidade sombria da fome e da miséria. Aos 34, após se separar, retornou ao Brasil. Doutora em Lingüística e Filologia, fluente em seis idiomas, ela decidiu ensinar e alfabetizar crianças de rua. Em pouco tempo, já tinha três salas de aula a céu aberto: duas em Copacabana e uma na Candelária.

Foi nessa última que ela conheceu Sandro Nascimento (um dos sobreviventes da Chacina da Candelária). Em 2000, ele seqüestrou um ônibus 174 e matou uma das reféns, Geísa Firmo Gonçalves, de 20 anos. Durante o sequestro, Sandro pedia aos negociadores que chamassem a “Tia Yvonne”, mas na ocasião ela não estava no Brasil. Pelo telefone foi avisada da tragédia. “O Sandro tinha visto a mãe ser morta. Algumas pessoas pensam que os menores que ajudo são bandidos, e esquecem que existem bandidos ricos. Chego a ser ameaçada quando acontece um assassinato cometido por um menor”, desabafou a, também, doutora em Políticas Públicas e Direitos Humanos, que já recebeu cusparadas na cara por defender crianças de rua.

Os três filhos de Yvonne, por motivos profissionais, não moram mais no Brasil. Isabel Löfgren, uma das filhas, leciona na Faculdade de Cingapura há dois anos e meio e, por e-mail, diz que nunca sofreu ameaças, mas relembra a época da Chacina da Candelária, quando muitos amigos se afastaram. “Uma vez, quando estava na escola, um engraçadinho veio me perguntar se o tênis importado que eu estava usando não teria sido comprado com o dinheiro que a minha mãe ganhou às custas dos assaltos das crianças. Não pestanejei. Parti pra cima do garoto, dei um soco nele”, contou, “Se fosse hoje eu teria ignorado”. Para a amiga e presidente do Projeto Uerê, Luciana Martha, causa desconfiança em alguns o fato de Yvonne conseguir transitar com extrema desenvoltura seja na favela ou num jantar na casa de um grande empresário. “Em ambos ela tem a mesma atitude. Ela entende da alma humana”, analisou Luciana, depois de dez anos de convivência.

Aos 62 anos, uma das maiores marcas da carioca é o Projeto Uerê. O Uerê-Mello – método de ensino desenvolvido por Yvonne – já beneficiou mais de duas mil crianças, e deve ser inserido nas escolas municipais da cidade do Rio de Janeiro ainda nesta gestão. Na comunidade Nova Maré, o Uerê atende meninos e meninas de três a 18 anos que apresentam confusão mental, falta de concentração e quaisquer outras dificuldades relacionadas à violência. Segundo Yvonne, 90% dos menores apresentam melhoras significativas.

Como é o caso de Jonathas, que tinha seis anos quando chegou ao projeto. O pai havia esfaqueado a mãe na frente dele e dos irmãos. Traficantes mataram o pai do menino. A criança parou de crescer, passou a apresentar problemas de visão e dores de cabeça. Depois de oito anos de tratamento, ele voltou a se desenvolver, a falar normalmente, e conseguiu uma bolsa de estudos numa escola particular. “As crianças chegam com medo, ninguém nunca se interessou nelas. De repente, elas começam a escutar: ‘Como você está bonita hoje’. Em dois meses, a diferença é brutal”, disse a doutora em Direitos Humanos.

Em Cingapura, a caçula Isabel utiliza a mesma didática com os estudantes universitários. “Funciona perfeitamente. O método Uerê não é só para crianças com trauma, mas para qualquer um que esteja em modo de aprendizado, tendo oito ou 80 anos”. A empresária holandesa Annie Hasemanns conheceu Yvonne pelo filme Warrior of Light (Guerreiro da Luz), produção alemã que conta a história da carioca. Em 2003, Annie decidiu se unir ao Uerê e, hoje, é coordenadora internacional do projeto. “Se Yvonne fosse uma cidadã alemã, ela teria sido honrada com a Cruz Federal de Mérito pelo seu trabalho com a vida de crianças que estão excluídas”, afirmou Annie.


Por Yasmin Pamplona